3ª noite do Festival de Brasília 2009

Quebradeiras, de Evaldo Morcazel

(por Willian Kroll)

O longa foi exibido pela primeira vez dia 19 de novembro, na mostra competitiva do Festival de Brasilia. Tem como personagens principais as quebradeiras de coco do interior do país, elas são mostradas no seu cotidiano, muitas vezes monótono de quebrar como. São mostradas também realizando outras atividades cotidianas, como o banho, a feitura das refeições, e as vezes são mostradas também cantando. Em algumas músicas são mostrados também homens, únicos episódios em que eles aparecem.

O filme é lento e parado, todos os planos são estáticos, precisamente construídos, é um documentário etnográfico, observacional, mas intervencionista. Não existe nenhuma entrevista, nenhum diálogo, a voz só é escutada durante as cantorias, mas fica claro o trabalho da equipe sincronizando, organizando e até ensaiando o movimento das personagens, a busca do plano mais bonito e perfeito. O expectador permanece distanciado, não acontece interação, identificação, apenas contemplação, pois o lugar é bastante bonito, a cultura mostrada parece interessante rica, mas permanecemos distantes. Um filme bastante sensitivo, as imagens são incremetadas pela trilha sonora original (Thiago Cury e Marcus Siqueira) sem ser redundantes, tudo muito perfeito, e as vezes artificial, também cansativo, muitos planos abertos e distantes onde nada ou quase nada acontece, contrastando com outros trechos onde planos detalhes parecem ensaiados e pontuados pela música. Uma obra de arte que se construiu como obra de arte, muito pouco além disso.

O filme foi dirigido pelo cineasta e jornalista Evaldo Mocarzel, 49 anos, é o seu 10º filme, que ele considera ser um divisor de águas em sua carreira, conta que não gostava de filmes muito intervencionista, era contra trilha sonoras em documentários desse tipo, acreditava ter um estilo no seu fazer, e com esse filme decide mudar, buscar influências em documentários mais experimentais, está em busca de um novo estilo. Parece ser bastante pragmático, faz algumas escolhas no filme, como por exemplo não utilizar de nenhuma palavra falada, e a partir daí constroi o seu filme, o que algumas vezes pode acabar engessando demais o produto final.

Curtas: Dias de Greve, de Adirley Queirós e Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos, de Camilo Cavalcante

Nessa mesma noite do Festival estreiaram dois curtas, um deles foi a ficção Dias de Greve, história que conta como se corportaram os funcionários de uma pequena metalúrgicadurante alguns dia em que se decidem de greve. As preocupações de sofrer descontos salariais dos dias parados, de como se comportar no dia-a-dia em que estão de greve, se podem aproveitar seu tempo para realizar outras atividades, até para se divertir, isso sem se sentir culpados por possíveis consequências da greve. Fazem reuniões, durante a noite, meio na penumbra, escondidos, como se o movimento fosse ilegal, proibido, lidam com o sindicato, temem ser manipulados. No final voltam a trabalhar, mas não são punidos, sentem a impotência perante o sistema opressor e vão tocando a vida do jeito que dá. Filme produzido na cidade de Cielândia no Distrito Federal, segundo curta produzido por esse grupo, o primeiro inclusive premiado no Festival de Brasília. O diretor Adirley Queiroz disse que queria que fosse uma produção com a identidade da região por isso foi usado uma equipe local, tirando algumas funções técnicas. Filme bem feito, narrativa clássica, mas bem construido, apesar de pecar em alguns aspectos da linguagem, principalmente com relação interpretação, que algumas vezes fica aparentemente artificial. Interessante também como mostra a cidade, periferia de Brasília, lugar para onde são segregados os mais pobres que não tem condições para morar na capital e que tem que lidar com as vantagens e desvantagens que tudo isso proporciona.

 ***

O segundo curta da noite foi Ave, Maria ou a mãe dos sertanejos de Camilo Cavalcante e se passa numa cidade do interior do sertão, as 18h, quando os sinos da igreja badalam e no rádio toca a música Ave Maria. Filme tranquilo, que não efatiza os sofrimento do Sertão, não aponta as desigualdades e a exploração, mas mostra como o povo forte, religioso, como se comporta na simbólica hora em que termina o trabalho e todos voltam para suas casas para comer e recuperar as forças para mais um dia de trabalho, com a benção da Ave Maria. Bonito, poético, na luz do entardecer, com a sanfona chorada de fundo, sensitivo e distanciado, contemplativo, mas sem metáforas mirabolantes, linguagem que funcionou bem no curta. O já premiado Camilo Cavalcante contou que foi um filme bastante coletivo, produzido sem a forte hierarquia comum em alguns sets. Foram feitas oficinas com a comunidade local, tentou-se trabalhar bastante com os moradores para tentar evitar ao máximo o olhar extrangeiro. Filme simples sobre um povo simples, de cultura tradição e religiosidade.

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Published in: on 4 de dezembro de 2009 at 15:38  Deixe um comentário  

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