2ª noite do Festival de Brasília 2009

Perdão Mister Fiel, de Jorge Oliveira:

Um filme é o que ele contém.

O cinema age com nobreza quando exerce a função social de esclarecimento, quando incita a população a lutar por seus direitos de liberdade. Principalmente quando retrata as obscuras questões da repressão ditatorial no Brasil e os assassinatos aos “inimigos internos” efetuados por seus órgãos, o cinema trata sua própria atitude didática como dever de cidadania. O filme Perdão Mister Fiel, de Jorge Oliveira, exibido na segunda noite do 42º Festival de Brasília, mesmo sendo completamente utilitarista, alcança todos os objetivos que propõe a si nestes termos sociais.

Perdão Mister Fiel é estritamente um filme de catarse. Utiliza de todos os apelos em seu alcance para extrair do público a comoção e, de tanto massacrar neste recurso, reduz a si mesmo a esse objetivo. A questão é que o filme se foca nesta meta em detrimento de um desenvolvimento estético mais pertinente, recusa que centra a mensagem apenas em seu conteúdo e a torna em si mais enfática, ao invés de acolher como um todo o espectador numa atmosfera tocante.

Jorge Oliveira explora as possibilidades da linguagem televisiva de massa. A partir de referências como o programa Linha Direta, adota como estrutura a alternância entre depoimentos e dramatização. A escolha, segundo ele, é pertinente porque supre a carência de imagens de arquivo do personagem principal, Manoel Fiel Filho, um operário que foi morto ao ser torturado nos porões da ditadura. Entretanto, o diretor deixa claro que deseja aproximar o filme do público e usa o recurso para envolver, temendo o desinteresse do espectador.

Ainda com este intuito, Perdão Mister Fiel utiliza, nas dramatizações, o recurso de colorir no enquadramento apenas um item, enquanto todo o resto é preto e branco. O uso é injustificável. Para Pedro Zoca, co-diretor, o elementro destacado atrai a atenção do espectador para a sua importância na cena e a complementa poeticamente pelo contraste de cor e ausência dela. Porém, entre caminhos, macacões e flores coloridos, o filme redunda no dramático. A tentativa é tão desesperada que expõe as deficiências técnicas dos realizadores, que, quando bombardeados por considerações sobre sua empreitada cinematográfica mal sucedida, se defendem ariscamente justificando como “uma opção de roteiro” e desconsiderando qualquer análise sobre a forma, já que o conteúdo está ali para ser pensado, e só ele.

O filme contém de fato – entre entrevistas desnecessárias e de falas repetidas por diversos meios que trazem episódios ocorridos no período militar – uma presença destoante: a de Marival Chaves, ex-agente do DOI-Codi. Apesar de seus depoimentos possuirem esses sim algo de revelador – e fazerem o filme ascender para longe do mais-do-mesmo -, a importância do depoente faz de Manoel Fiel Filho um coadjuvante, quase uma escolha aleatória dentre tantas vítimas da mesma causa. Isso é revelado pelo curso da montagem, que abandona o personagem depois da dramatização de sua morte (que acontece antes da metade do filme) e passa a se agarrar apenas no contexto. E não satisfeito em se concentrar em uma abordagem específica – mesmo que já estivesse confuso – Perdão Mister Fiel traz ainda à tona a discussão sobre a responsabilidade do imperialismo dos Estados Unidos na instalação da ditadura em toda a América do Sul. Deve ser esta a justificativa da palavra mister no título do filme, apesar de o perdão jamais ter sido pedido ou reconhecido.

Se Perdão Mister Fiel não é um filme bem sucedido – chegou a ser questionado sobre o uso do cinema como meio para a abordagem. Ainda mais, levantou-se a crítica sobre o merecimento deste filme ser de fato chamado filme -, ao menos triunfa no alcance de sua mensagem; segundo o diretor, uma exibição prévia fez com que o caso de Manoel Fiel Filho fosse reaberto pela Justiça. Por isso pode-se dizer que Perdão Mister Fiel é um filme de missões sociais, e ele as cumpre.

 Curtas: Bailão, de Marcelo Caetano e Água Viva, de Raul Maciel

Bailão utiliza de duas formas fundamentais para transpor o espectador para a sensibilidade de seus personagens: a voz off e a câmera observadora. Desta forma efetiva, o diretor tenta eliminar tabus e questões morais para construir cumplicidade nesta relação público-filme.     A opção de linguagem à qual se recorre Marcelo Caetano constrói um anonimato abrigador à seus personagens, e consequentemente uma certa dúvida sobre suas imagens, se são pessoas que ilustram depoimentos ou se são os donos das vozes que publicamente se recorrem ao silêncio. O filme – que retrata memórias de uma homossexualidade reprimida no passado – faz manter a idéia submundana de quem narra, e mesmo assim difunde em si mesmo um obscuro sofrimento claustrofóbico de quem clama pela própria desmarginalização.

***

Água Viva opta pela caminho da narratividade explícita para ser mais efetivo no aspecto “sensorial” que almeja para si, mesmo desmembrando partes de sua estrutura para subtituí-las por conexões interpretativas livres. Tal escolha permite uma abstração dentro de um contexto estabelecido, e não de um completamente vago, o que exigiria certa interação de referências entre autor e leitor para haver compreensão. Entretanto, Raul Maciel alarga as lacunas de forma a não permitir uma coerência narrativa e dar espaço a uma experiência sensível. Esta acontece de fato, talvez não na intensidade em que deseja o diretor, nem da forma ideal, já que há necessariamente uma verticalização da experiência em detrimento da coerência; mas sim de forma a compor silêncios e pontuar fatos, como o curso de um rio, em que se sente textura, sabor e força.

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Published in: on 1 de dezembro de 2009 at 18:16  Deixe um comentário  

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