1ª noite do Festival de Brasília 2009

Filhos de João: O Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas:

Uma linha que se perfura.

Os documentários musicais costumam seguir um padrão cronológico da biografia que pretendem reportar, como se caminhassem em uma linha, e somente sobre ela, para amarrar fatos pontuais e essenciais no curso da vida do artista ou da banda em questão. Filhos de João não recusa essa estrutura, muito pelo contrário, a adota para manter a coerência dentro do tema que apresenta; o antes e o depois da “adoção” dos Novos Baianos por João Gilberto e sua determinante influência no som revolucionário que ali nascia.

No documentário de Henrique Dantas, os Novos Baianos são uma exemplificação de um argumento, de uma tese (como o próprio diretor chamou) da qual consiste de fato o filme: a influência de João Gilberto na nova cultura baiana. O mediador desta interação é Tom Zé, baiano que, como um bom tropicalista, também é filho de João. Sua filosofia peculiar dispensa qualquer historiador da música e dá ainda mais força ao discurso do diretor. Tom Zé não só alterna fatos com comentários relacionados como dita os caminhos do filme, como se ele mesmo selecionasse as imagens convenientes na montagem, de acordo com a propriedade de seu discurso. É dessa forma que ele apresenta o documentário para além das linhas biográficas dos Novos Baianos, se fazendo instrumento para um mergulho mais aprofundado do tema principal.

Não se trata de um subtema, e sim de um intratema. Não é também algo que se desbrave durante o filme, ou que se infira deste, mas sim uma idéia já coerentemente apresentada no próprio título. Assim, dentre tantas possíveis exemplificações, o tema do filme também remete a um sistema.

É estranho que uma banda fundamental para a construção da identidade musical brasileira seja posta a parte em opção a uma estrutura entranhada no filme, mas não é definitivamente o que se faz em Filhos de João. Henrique Dantas faz uma reverência fanática ao grupo essencialmente baiano, retrata sem titubeios toda a trajetória do grupo, suas irreverências, suas peculiaridades e disparidades. O espectador se descontrai como quem ouve um causo e depois uma bela canção.

Assim, Filhos de João não segrega o entendimento do filme àqueles que são capazes de perceber essa abrangência. O assunto em si é um fluxo tranquilo tanto para conhecedores quanto para os que nunca ouviram falar em Novos Baianos, mesmo que seja muito difícil nunca ter ouvido alguma de suas canções. Propõe, desta forma, níveis de compreensão do filme, diferenciadas de acordo com as vivências do espectador, o que é uma forma variada de promover a narratividade individualmente.

Curtas: Homem-bomba, de Tarcísio Puiati e Os Amigos Bizarros do Ricardinho, de Augusto Canani

 O imaginário é o tema que permeia o curta-metragem Homem-bomba, porém não é tratado de forma a manter uma coesão estrutural dentro da narrativa que propõe. O filme se apresenta com duas crianças que supostamente ocupam posições de guarda no sistema do tráfico de drogas – e a suposição aqui é no que não se pode inferir da história, uma vez que nada acontece para que isto seja provado. A idéia continua não garantida na medida em que os meninos trocam perspectivas e contam histórias, todas floreadas com muito da fantasia infantil, recheadas de referências culturais e de inocência, o que suscita o riso e a afeição pelos personagens.  

Esta indefinição do ponto de partida abre para uma expectativa, instiga para um caminho em que se almeja uma confirmação. Entretanto, o filme desemboca para outras e maiores possibilidades não aprofundáveis, e as tentativas de se estabelecer uma unidade aos fatos não passa da especulação (em dado momento, uma das crianças sai para uma operação enquanto a outra a aguarda na expectativa de sua sobrevivência). Certamente, tudo acaba justificado pela imaginação.

No momento final, o menino que saiu confirma sua morte e reaparece para o amigo. A marca simbólica do sangue em seu peito ainda mantém a indefinição dos fatos, mas encaminha a narrativa para outro enfoque, o drama. Não só pelo sofrimento e pela confusão do menino que o aguardava, mas também pelo fatalismo e a falta de perspectiva enraizadas na desesperança das crianças do tráfico. Mas falta entre uma atmosfera e outra um enlace, há um vácuo. É um salto digno de uma brincadeira de criança, que se apressa para o momento de ação e seu desfecho.

 ***

Amigos Bizarros do Ricardinho traz consigo, antes de tudo, uma carga regional inerente, como se o Rio Grande do Sul fosse uma referência contingente nos filmes gaúchos. Dessa forma, assiste-se o filme fazendo conexões com a linguagem de Jorge Furtado (principalmente em Ilha das Flores) e contrapõe-se o humor requintado à cisudez do povo do sul, qualidade reduzida que foi ressaltada durante o debate, no dia seguinte à exibição.

O filme amarra conteúdo e continente de forma que dialoguem em mão dupla. Ricardinho é arte-finalista estagiário de uma agência de publicidade e vive na eminência da demissão, já que o dono da agência têm pendências pessoais com a família do personagem. A linguagem de montagem e a saturação de cores de fotografia e arte remete à uma forma publicitária, como se a própria agência que é cenário na história pudesse produzir ela mesma o filme. Esse argumento é corroborado quando, no filme, o arte-finalista-chefe reúne todas as histórias bizarras contadas por Ricardinho e as publica para toda a agência. Na narrativa, os causos de Ricardinho já são produto, como um pré-roteiro que seria avaliado e roteirizado pelo redator da agência, e depois finalmente filmado. Além disso, o filme é não só baseado em fatos reais como o seu personagem é o próprio ator, cujo nome é Ricardo Lilja, que aliás é um ator amador que faz ele mesmo de forma muito crível.

Dessa forma, Amigos Bizarros do Ricardinho traz para si uma consistência que estrutura a narrativa e garante sua fluidez. Seu humor requintado e suas histórias extraordinárias certamente contribuem para uma coesão completa de forma e conteúdo, mesmo que até na conquista do público se utilize o artifício publicitário.

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Published in: on 30 de novembro de 2009 at 11:59  Comments (1)  

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